Coord. Geral: Profª. Doutora Rute Sousa Matos
(Departamento de Planeamento Biofísico e Paisagístico, Universidade de Évora)
2009-2017
A Ideia da Paisagem na Cultura Portuguesa
Uma ideia de identidade da paisagem pode assentar numa leitura retrospectiva das transformações recentes num território, que são evidentes ao “olhar” disciplinar, tanto de arquitectos como de geógrafos, arquitectos paisagistas, sociólogos, antropólogos entre outros. Porém, considera-se que, para se entender verdadeiramente uma matriz cultural e valorativa da paisagem, é necessário outras leituras – as recorrências terão de partir de um quadro temporal mais vasto e as perspectivas discursivas a partir da literatura ou da arte, tornam-se indispensáveis. Assim procura-se uma fundamentação teórica de uma identidade da paisagem, assente numa ideia de valor construída por uma cultura estruturada no tempo e na relação indissociável com o “todo”, um quadro que permite formular outras “visões”, e por isso também uma visão prospectiva da identidade da paisagem, retirando dela futuras aplicações da ideia de paisagem. Hoje, a paisagem está cartografada e os seus processos e fenómenos são amplamente registados e discutidos pelas mais diversas disciplinas. Porém, faltam estudos que motivem uma outra compreensão da paisagem. Propomos neste projecto uma abordagem que, sem por em causa as análises formais/materiais, procura antes investigar conteúdos não materiais, a parte que representa um imaginário ou um arquétipo matricial, que se pode manifestar nas diversas expressões do discurso da paisagem. Pretende-se apurar critérios de atribuição de valor à paisagem fundamentados nas especificidades da cultura portuguesa. Partindo de uma reflexão antropológica com base em documentos históricos e documentos da literatura portuguesa, serão identificadas as características fundamentais do que se pode designar por “a ideia de paisagem na cultura portuguesa”. Esta “ideia” ou “arquétipo”, corresponde a um modelo (não físico, mas ideológico) de paisagem, ancestral, difundido ao longo dos séculos na cultura popular, numa herança inter-geracional ou também captado na cultura erudita em determinados momentos históricos.
A Transformação da Paisagem nos últimos 60 anos
As cidades actuais já não se caracterizam pela continuidade do seu tecido urbano e pela definição rigorosa dos seus limites, o que não constitui, à partida, um factor negativo, mas sim uma realidade distinta. O próprio ritmo de mudança dos factores tecnológicos, económicos, sociais e demográficos, são deste facto determinantes. É nos espaços abertos, intersticiais, sobretudo os que se localizam na periferia, onde se faz sentir mais esta transformação. Estes, para além de constituírem problemas óbvios, em termos morfológicos, funcionais e de desenho urbano, oferecem também um grande potencial em termos de utilização e de oportunidades de coesão do tecido urbano e da própria cidade global. Estes espaços, isto é, os que resultam do crescimento da cidade e aos quais não se associa alguma tipologia morfológica ou funcional específica, são lugares sem forma, sem carácter, sem apropriação, e que ocorrem entre outros elementos urbanos. Estamos, pelo contrário, perante um novo conceito de cidade que não se caracteriza pela homogeneidade, mas sim pela transformação sucessiva a que está sujeita, onde a descontinuidade, as rupturas e o caos são uma constante.
2018
Parte do conceito de paisagem enquanto configuração de um sistema de relações culturais, ecológicas, sociais e afetivas. Isto determina que o conceito de património seja, também ele, um conceito operativo, uma vez o entendemos como sinónimo de paisagem, sistema de construção e de representação das comunidades, pelo vínculo relacional que ambos estabelecem com o espaço em que se inserem. Concentra a sua investigação numa revisão do conceito de património e no aprofundamento do conceito de transformação, intrínseco ao sistema-paisagem com que trabalhamos. Neste sentido têm sido desenvolvidas ações de reconhecimento da paisagem, enquanto estratégia operativa de planeamento e desenvolvimento, em países emergentes e em Portugal a partir dos conceitos de memória ecológica e memória coletiva das populações, sempre sob a perspetiva do envolvimento das comunidades.
